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23 junho 2014

Conversa ao Meio Dia com Guilherme Nakashato

Nestas últimas semanas tive uma experiência fantástica: promover encontros de formação com educadores do projeto Fábricas de Cultura de São Paulo, junto da equipe do Arteducação Produções, em especial com os amigos de longa data, Camila Lia e Erick Orloski.
A formação foi aberta com uma fala de minha ex-orientadora, a Profa. Dra. Rejane Coutinho e no último dia ela mediou uma mesa redonda juntamente com a Profa. Dra. Luiza Christov e o Prof. Dr. Mauro Bolognese, promovendo importante debate sobre ensino da arte, mediação cultural e o aprendizado pela experiência estética. O envolvimento deste trabalho junto com os educadores das Fábricas de Cultura provocaram-me reflexões sobre estes temas, ainda mais com um questionamento (dos inúmeros que surgiram durante os encontros) sobre a relevância do erro, da imprecisão e do acerto no processo educativo. Disto, decantou-se este breve ensaio.

 Desvios e ariticuns
O poeta Manoel de Barros é daqueles escritores que tem a incrível capacidade (e coragem) de nos fazer ver o mundo com olhos transformados. Com simplicidade e aguda percepção ao seu redor convida-nos a sentir a luz do sol em nosso rosto, a maciez das águas dos rios, o humor dos animaizinhos e os segredos que permanecem adormecidos no lado de baixo das pedras. Isso é aprender. E também ensinar.
  Ele nos conta sobre o que escutou de Padre Ezequiel:
  “Veja que o bugre só pega por desvios, não anda em estradas – Pois é nos desvios que se                 encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.”[1]

            Essa sabedoria vinda de culturas ancestrais era passada de geração em geração de forma muito valiosa: pela vida, com a vida e para a vida e que, infelizmente, fora esquecida pela modernidade – e, felizmente, lembrada por pessoas de sensibilidade como Paulo Freire. E Manoel de Barros. Ou então, do Padre Ezequiel, a quem Barros aponta em seu texto poético como aquele que lhe contou sobre os “desvios” e o fez enxergar que há valor neles.
            E quem sabe, não voltaríamos nossos olhares, de verdade, para o que nos ofertam Freire, Barros e Padre Ezequiel? Digo isso, pois estudamos, lemos, sabemos, entendemos, compreendemos etc., mas paradoxalmente, parece que tudo ainda não está em seu lugar. Então estudamos, lemos, sabemos, entendemos e compreendemos para o que não somos e apenas aspiramos como seríamos ou deveríamos ser. Portanto, façamos isso de verdade. Por que insistimos nas estradas? Transformamos as escolas e nossa educação em auto-estradas: multiplicamos suas pistas, perfuramos montanhas, cruzamos rios, planificamos terrenos e aumentamos vertiginosamente a velocidade de seus transeuntes. E nos esquecemos de ver a paisagem, de sentir o cheiro do ar e  de ouvir o que há em nosso redor. O pior é ficar sem as surpresas e sem os frutos maduros das veredas que se escondem de nossa vista embaçada pelos dígitos do odômetro ou pelos ponteiros do relógio.
Inspirado pelos poetas, como Jorge Luís Borges, os educadores poderiam também refletir pelas bifurcações dos caminhos que se  apresentam em nossa vida, um fantástico labirinto em que não nos perdemos, mas que nos encontramos. Vislumbrar as escolhas que fazemos, trilhar pela estrada e ou pelos desvios. Cabe, então, perguntar: se transformamos a escola em auto-estrada, onde estão os desvios? Os poetas já nos decifraram o enigma: na vida. E porque não exergamos algo tão óbvio?
Aí, respondo por mim: fui educado para andar na estrada, a qual sempre relutei sair, como se fosse me perder, ficar em perigo – aprendi o medo de sair dela. Vejo, hoje, que o arriscar pode proporcionar doces sabores de frutos maduros. Ao andar somente pela estrada restringi meu gosto a frutas de supermercado – não sei reconhecer, nem qual o sabor de um ariticum. Talvez o desvio esteja me provocando a conhecer o desconhecido, a arriscar novas surpresas e a perseverar na busca de algo que não esteja confortavelmente ao meu alcance.
Cabe ainda mais uma reflexão: como integrar a auto-estrada com os desvios? Não consigo pensar em outra alternativa além de encostar o veículo e de seguir a pé estes novos caminhos. Talvez haja outras possibilidades, mas no momento, penso que caminhar e sentir estas trilhas é a melhor forma de (re)aprendermos com o mundo.
Finalmente, informaram-me que ariticum é tal qual ou mesma coisa que fruta-do-conde, sendo esta de supermercado, então eu conheço. E aí penso na importância da experiência: poderia me contentar com esta constatação dos outros – isso também me ensina... Mas acredito que será muito mais significativo se eu buscar um ariticum em plena metrópole e constatar por mim o que seja.
            Quero saber o gosto de um ariticum maduro.




[1] BARROS, Manoel. O livro das ignorãças. 14ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p.87.
http://projetoredigir.com/2012/04/os-deslimites-da-palavra-por-manoel-de-barros/

19 junho 2014

CONVERSAS AO MEIO DIA

Segunda-feira que vem tem mais um post da série Conversas ao Meio Dia.

Aproveite o feriado e até lá!


12 maio 2014

Conversas ao meio dia com Carolina Marielli


Olá,


Sou a Carolina, mas podem me chamar de Carol, vou contar resumidamente minha formação e trajetória profissional, assim vocês podem me conhecer um pouco, antes de iniciarmos nossa conversa.
Sou Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da UNESP, e graduada em Educação Artística com Habilitação em Artes Plásticas também pelo mesmo instituto, tenho formação técnica de nível médio em Desenho de Comunicação pela EESG Carlos de Campos, atual Etec e em Vestuário pelo Senai.
Desde 2001 desenvolvo trabalhos de pesquisa em Arte e Design, voltados para cursos de formação de educadores/professores, desenvolvimento de currículo, projetos na área de mediação em espaços culturais, arte-educação, assim como oficinas de linguagens visuais/design. Como docente atuo desde o ensino fundamental à pós-graduação, mas concentrando minhas atividades na educação profissional e médio.
Hoje na nossa "Conversa ao meio dia" vamos falar um pouco sobre Gamecultura e a Cultura dentro dos jogos eletrônicos. Parto do pressuposto que jogos eletrônicos podem ser abordados de muitas maneiras por educadores, alguns artigos  tem discutido o papel deles na contemporaneidade e na educação. Vale a pena dar uma olhada na produção do Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC de São Paulo, a Revista Culturas Midiáticas da Universidade Federal da Paraíba ou uma pequena busca no Google Acadêmico para percebermos os diversos enfoques e aproximações.

Gamecultura se formaliza nas práticas sociais, hábitos cotidianos e valores mediados pelos jogos eletrônicos, bem como aqueles originados por outras mídias que partilham de seus conteúdos e matrizes. Basta olhar a sua volta, no transporte público, nos intervalos e salas de espera ou perguntar aos seus educandos o que eles andam jogando ultimamente, para percebemos o quanto estamos imersos nessas questões.

A questão dos jogos como cultura implica em ir além das fronteiras do círculo mágico do jogo para considerar como os mesmos interagem com os contextos em que se encontram. Há várias maneiras de considerarmos os jogos como cultura, estou usando aqui a definição de cultura como produção/pensamento humano e como educadores necessitamos entender o que os jogos podem representar,  as  representações que refletem, os significados dos contextos onde são produzidos e contextos que são jogados.

Legenda: Didi e Dawn protagonistas do jogo
Imagem de divulgação Compulsion Games/Focus Home Interactive

Tal compreensão nos leva a considerarmos o jogo como um texto cultural, possibilitando fazer uma leitura interpretativa do jogo e suas imagens. Vou usar como objeto de estudo o jogo eletrônico Contrast, um jogo de quebra-cabeça independente de plataforma que foi desenvolvido pela Compulsion Games e publicado pela Focus Home Interactive ambientado na França dos anos de 1920.

O jogo constrói a trajetória vivida por uma menina que tenta ao longo de sua jornada reconciliar os pais, dois adultos em crise, um conflito emocional muito diferente dos tiros e zumbis amplamente difundidos pela indústria dos jogos eletrônicos. A classificação etária é de 10.

Além das questões estéticas o que mais me chamou atenção é o fato de a protagonista ser uma menina, Didi, que interage com a jovem acrobata/mímica Dawn, uma projeção criada pela criança. Não há ninguém no mundo além delas, toda a interação com os outros personagens se dá através das suas sombras na parede. Que relações humanas e de gênero estão presentes nessa narrativa?

Legenda: Contrastes interação entre linguagens 2D e 3D.
Imagem de divulgação Compulsion Games/Focus Home Interactive

Quanto a estética o jogo utiliza da ideia de contraste em vários aspectos, o mais óbvio é o uso de claro/ escuro, sombras projetadas e alternância entre a linguagem 2D e 3D. As cenas da cidade destruída nos remetem as paisagens de De Chirico, é possível ainda perceber as características  e inspirações no Vaudeville  e na Art Deco. O jazz ambienta o jogo, assim como a voz rouca da mãe de Didi, uma cantora, nos lembra suas divas. Quantas referências foram utilizadas para criar esse jogo?

A partir dessa breve apresentação de um único jogo, que leituras e diálogos, nós arte/educadores, podemos fazer com nossos jovens educandos sobre os jogos eletrônicos?

É claro que fiz uma escolha, mas mesmo alguns blockbusters nos possibilitam essas e outras abordagens, precisamos estar atentos apenas à faixa etária, mesmo sabendo que ela não é respeitada, muitas vezes nem pelos pais que compram os jogos, mas isso é uma outra conversa.

[Aprofundando a discussão]






Até mais,
Carolina




30 abril 2014

Conversas ao meio dia.

A série "Conversas ao meio dia" volta na próxima segunda-feira com Carolina Marielli que escreve sobre  Gamecultura e a Cultura dentro dos jogos eletrônicos. 

Aguardem!!!

http://www.arteducacaoproducoes.com.br/

23 abril 2014

Conversas ao meio dia com Valéria Alencar

Olá leitores do AEOL.

Hoje vou falar sobre uma das propostas expositivas, ou de leitura, ou de mediação, ou de intervenção… (não sei como chamar ainda, vocês podem me ajudar depois) que mais me chamou a atenção aqui em Londres, no Museum of London, uma proposta ao mesmo tempo expositiva e educativa, uma ideia simples que, se não é possível fazer da mesma forma, é possível adaptá-la, daí fica uma sugestão, uma dica…

No geral, as visitas e atividades com grupos escolares que pude acompanhar aqui em Londres se assemelham muito ao que pode ser chamado: visita palestra, uma mediação discursiva, ainda que o educador tente dialogar, é aquela pergunta confortável, ou seja, da resposta esperada, foi assim que vi no British Museum, na National Gallery e no próprio Museum of London, mas o que vou apresentar aqui foi algo que vi como visitante, ainda que a mediadora e a pesquisadora sejam parte de mim, foi na minha primeira visita a este museu, sem saber  nada a respeito, que me surpreendi.

Vale destacar aqui que o Museum of London foi o local onde encontrei abertura para realizar minha pesquisa de campo, o pessoal do Learning Department (como se chama aqui o serviço educativo dos museus) foi sempre muito atencioso comigo.

O Museum of London, criado na década de 1970, tem a proposta de contar a história da cidade de Londres, de uma forma que enaltece a cidade e o Londrino, sério mesmo, ao final da minha primeira visita lá, saí com a ideia que aqui é a melhor cidade do planeta, ou seja, o discurso expositivo atingiu seu objetivo (rs). Existem dois prédios com exposições, entrada franca, e um prédio com o acervo arquelógico, que também é possível visitar, agendando e pagando, abre para grupos pequenos em visitas temáticas, é bem bacana e não é caro, vale a pena.

Os dois espaços expositivos contam histórias diferentes da cidade, o prédio Museum of London Docklands, é um pouco menor, fica no lado leste, região das docas, foi pobre um dia, é a região onde Jack estripador fez suas vítimas, aliás, tem uma visita sobre isso, bem interessante. Mas vou falar sobre uma exposição no outro prédio, na sede do museu, no centro da cidade. A exposição se chama “Our Londinium”. Londinium era o nome da cidade na época do domínio romano, sim o romanos chegaram até aqui e até mais longe ao norte, o acervo do museu sobre esta época da cidade é bem grande. A exposição em questão foi criada com a colaboração de jovens de diversas identidades culturais, entre 14 e 24 anos, “reinterpretando o que os romanos deixaram para trás e questões de como os londrinos de hoje podem ser iguais ou diferentes do habitante de Londinium” (texto de parede da exposição). 

Como eu vi tudo isso? Formas de leitura de objetos, os jovens que participaram deste processo, ao meu ver, dialogaram de fato com o acervo.


Jarra, 330-420 d.C., encontrada em escavações no aeroporto de Heathrow. 
Antigamente usada para colocar cerveja como oferenda aos deuses, encontrada num poço abandonado. 
E as garrafas de água como reinterpretação do objeto. 
Foto: Valéria Alencar, Out./2013.


Minha leitura da vitrine como um todo, se me é permitido fazer aqui, “deixada para trás” foi a jarra e deixadas para trás são as garrafas de água que não podem passar no raio-x do aeroporto… Claro, essa leitura minha é de hoje, contaminada por algumas viagens e garrafas abandonas… na época só associei ao fato de recipientes para conter líquidos. Mas, o ponto é, os jovens que “leram” o objeto o fizeram a partir de um referencial, a exposição me dá mais possibilidades de leituras.

Outro exemplo:


Dado de pedra, 100-200 d.C. Encontrado em Guy’s Hospital, Southwark. 
Foto: Valéria Alencar, Out./2013.

Além da sala “Our Londinium”, algumas intervenções, leituras de objetos ao meu olhar, foram colocadas em outras vitrines do museu, devidamente identificadas pela cor da legenda, como na vitrine sobre transporte:



Foto: Valéria Alencar, Out./2013.



Mais um detalhe, na legenda é posta uma questão para pensarmos a relação passado/presente. Não sei se são as melhores questões, poderiam ser outras talvez, de qualquer forma, são possibilidades de reflexão, como na vitrine “Age of convenience”:



Foto: Valéria Alencar, Out./2013

Possibilidades foi o que tirei disso tudo, possibilidades do mesmo exercício em outros locais, esse exercício de leitura, ou de mediação, ou de intervenção…


Valeria Alencar

14 abril 2014

Conversas ao meio-dia com Ana Amália

A conversa de hoje é com a arte-educadora e fundadora do Arteducação Produções Ana Amália.  Ela defendeu em 2012  sua tese de doutorado "Além do corpo: uma experiência em arte/educação" que pode ser lida integralmente aqui. Para conhecer mais a autora, acesse seu blog.
Boa leitura!
"Piso", aquarela sobre papel.
Acessibilidade?
Tem sido cada vez mais frequentes os eventos sobre acessibilidade em espaços culturais. Há quase 12 anos, quando tive o AVC e fiquei tetraplégica, era tudo muito mais difícil. Por varias vezes fiquei parada, em minha cadeira de rodas, sem poder entrar em algum espaço cultural. A partir de 2009 passei a levar meus alunos cadeirantes da Associação Nosso Sonho e criei o habito de ir ao local antes para certificar-me da acessibilidade, não apenas física.
No dia 28 de março fui à um evento da jornada cultural no Itaú Cultural sobre acessibilidade e inclusão em espaços culturais. Não posso falar muito a  respeito porque não estive em tudo apenas na palestra da deputada Mara Gabrili, que falou bastante das leis para pessoas com deficiência, algumas leis já aprovadas e outras em tramitação na Câmara do Deputados, por exemplo, a  instituição do "Dia Nacional do Teatro acessível: Arte, Prazer e Direitos de 21/08/2013" de autoria de  Mara Gabrilli – PSDB/SP, Rosinha da Adefal – PtdoB/AL, Jandira Feghali – PcdoB/RJ e Jean Wyllys – PSOL/RJ. 

Sempre me pergunto de que acessibilidade estão falando.
Recentemente fui a um evento no MAM/SP que é um museu totalmente acessível, e na exposição tinha uma  obra  que estava muito alta para mim, se eu não conseguia ver, imagine uma criança.
Outro dia fui a Caixa Cultural, também totalmente acessível, mas de onde eu olho os quadros o reflexo da luz nos vidros, ofuscam.
Ou seja, os locais são acessíveis, mas a expografia não. E o educativo?
Vou parar aqui.
Deixo essa pergunta e na próxima vez falaremos sobre os educativos.
Ana Amália Tavares Bastos Barbosa

07 abril 2014

Conversas ao meio-dia com Stella Ramos

Em minha vida pessoal e profissional, como educadora, formadora de equipes ou como público, a ideia de experiência significativa, vinda das ideias de Dewey e Larrosa, é assunto presente de investigações e desejos. Em contraste, a oferta de espetacularizados eventos cotidianos é enorme. A sua hora chegou, ou ainda a melhor viagem da sua vida está aqui, além da certeza de que você nunca sentiu isso antes, entre tantos outros excessos. Num mundo tão hiperbólico, a experiência da delicadeza ganha ainda mais valor.

Para mim as tais experiências significativas, que nos atravessam, fulminantes, no contato com a arte, tem uma frequência relativamente restrita, tesouro recolhido às vezes em situações não imaginadas.

O cinema me traz boa parte delas, e uma vez, ao acaso, me trouxe de encontro a este filme. Tinha ido com um amigo assistir a um filme de que nem me lembro mais, mas nos deparamos com a sala lotada. O único ainda disponível, num concorrido domingo à tarde, era um de título esquisito e obscuro: Kamchatka. Entrei sem expectativa nenhuma, e de algum modo, nunca saí de lá.

A história conta um duro momento na história da Argentina, em que o país se afundava em sua terrível ditadura militar. O filme, no entanto, se foca na narrativa de um menino de 10 anos e sua percepção sobre a fuga de sua família numa tentativa desesperada de fugir do horror das perseguições políticas da época. No lugar de apresentar a história de um país, conta a história de uma família com seus conflitos e afetos, entre consistentes e deslocados, num momento de grande mudança.

Não sabemos os nomes de ninguém da família, no momento em que se mudam para uma linda chácara no interior. Passamos a conhecê-los apenas como pai, mãe, pequeno, avô, avó e Harry, nome escolhido pelo pequeno protagonista, que nos conta tudo por seus olhos investigativos e curiosos.




A descoberta do mundo é aguda para Harry, neste momento. Entre carinhosas metáforas oferecidas especialmente por seu pai, ele tenta reconstruir suas relações com a nova realidade ao mesmo tempo em que se delicia com a presença muito maior dos pais no dia a dia. Lida com a morte no encontro com animais no quintal, e inicia seu treinamento de resistência com uma bela descoberta: um livro esquecido por alguma criança em cima do seu novo armário. Não por coincidência, conta a história do famoso Houdini, escapista que o inspira a ampliar suas capacidades de resistir. 


Junto aos treinamentos inspirados por Houdini, há momentos intensos de alegria e tensão com a família. Os pais, apesar de toda a insegurança da situação, são pais com o mesmo desejo de todos: preparar os filhos para os desafios futuros. Numa das cenas mais marcantes do filme, pai e filho jogam War, um contra o outro. Numa situação de jogo, as hierarquias podem se inverter e os dois ficam em pé de igualdade. Depois de quase ganhar a partida, Harry aprende o que de melhor poderia ganhar naquele momento: que a resistência é feita de força e esperança.



Um filme delicado sobre um tema brutal. Para lembrar, sempre, que há um lugar de onde resistir.

(E onde é que entra Kamchatka nesta história? Para descobrir isso é preciso ver o filme...)


Stella Ramos trabalha com educação não formal, e integra o coletivo Zebra5. Faz do cinema, da literatura e da delicadeza seus refúgios de resistência.


Stella Ramos 
Zebra5 Jogo e Arte www.zebra5.com.br 
contato@zebra5.com.br

31 março 2014

Conversas ao meio-dia com Valéria Alencar.

Olá. Meu nome é Valéria Alencar. Trabalho, estudo, pesquiso, respiro mediação cultural. Sou colaboradora do coletivo Arteducação Produções desde 2001. Atualmente, estou morando em Londres, serão 12 meses de experiência até agosto para complementar minha pesquisa de doutorado, claro, sobre Mediação Cultural que faço no Instituto de Artes da UNESP, com a orientação da professora Rejane Coutinho. Minha pesquisa trata da utilização das imagens em museus e exposições históricas.

Assim como o Erick Orloski escreveu aquipossuo bolsa de doutorado sanduíche pela CAPES. Meu tutor aqui em Londres é o professor Dennis Atkinson, contudo não tenho uma relação com a universidade, pois a minha pesquisa acontece nos museus. Inicialmente intencionava fazer minha pesquisa no British Museum, mas mudanças de planos aconteceram, especialmente por conta do British ser um, como denominei, um museu de coisas, sim, tem muita História lá, mas optei por outro local, o Museu de Londres. Assim minhas idas ao British Museum trazem um outro viés para minha formação acadêmica e outras reflexões para a minha pesquisa.

Cheguei em Londres com a minha filha Helena de nove anos, em agosto de 2013, uma mudança e tanto em nossas vidas. Poderia escrever e falar sobre tantas experiências e sobre a minha pesquisa por dias, mas não será esta a proposta aqui. Quando fui convidada a escrever na AEOL fiquei imaginando qual seria o assunto dentre tantos possíveis. Então, fui ao British Museum (de novo) para ver uma parte que ainda não tinha visto (o museu é muito grande, ainda bem que tem entrada franca, dá para ir sempre e ver com calma): o acervo referente à Grécia.

Como disse, o British é um museu de coisas, coisas de toda parte do mundo, ainda que a proposta curatorial das diferentes salas/acervos possa ser diferente, o discurso de “olha tudo o que conquistamos no mundo” do Império Britânico sempre salta aos meus olhos. A sala referente ao século das Luzes, época em que o museu foi criado, é ótimo exemplo disso.


 Vista da sala Enlightenment: discovering the world in the 18th century. British Museum, London.
Foto: Valéria Alencar, Mar./2014

Sempre ouvi, desde a época da faculdade de História, lá na década de 1990, o discurso da formação do acervo dos grandes museus europeus ter sida a partir de exploração e saque dos territórios conquistados, sim, eu já sabia disso. Eu mesma falava sobre isso com meus alunos de graduação, algumas vezes com discussões acaloradas sobre se estes países deveriam ou não devolver tais artefatos. Eu nunca consegui me decidir, às vezes concordando com o discurso de que assim como estava tais artefatos foram preservados, às vezes, discordando.

Porém, neste dia de mais uma ida ao BM (carinhosamente chamarei assim), minha experiência foi um mix de surpresa, indignação e emoção.

Surpresa porque aquilo que eu sabia na teoria, de que o acervo era formado a partir da exploração e saque, uau!!! (pode escrever uau num texto? mas eu não sei traduzir em palavras…) é sim, é mais do que eu imaginava saber… O que, depois da surpresa, causou indignação: “que absurdo, sobrou algum vaso na Grécia?”, “eles trouxeram o altar inteiro?”, “o que sobrou na acrópole?”, daí muita emoção poder ver aquelas imagens da cerâmica e do mármore que eu só tinha visto nos livros…



Vista da sala Greek Vases. British Museum, London.
Foto: Valéria Alencar, Mar./2014


Sim, é muito vaso, centenas? Não, milhares, expostos em diversas salas, a maioria em excelente estado de conservação, inteiros mesmo, nunca quebrados e juntados, colados. Agora, os mármores... Foram minhas maiores surpresas, indignações e emoções.



Vista da sala Nereid Monument. British Museum, London.  
Foto: Valéria Alencar, Mar./2014

São os famosos “Elgin Marble”. Lord Elgin foi o conquistador, explorador que levou Atenas para o BM no início do século XIX , existe hoje em dia uma discussão acalorada sobre o museu devolver tal acervo à Grécia, aliás, neste mesmo dia, ao retornar para casa, no jornal do metrô, por conta do lançamento do filme Monuments Men, tinha uma pequena nota a respeito do ator George Clooney ter defendido a devolução dos mármores aos gregos .

Certamente, pode-se argumentar que tudo poderia ter se perdido, a Acrópole por exemplo, foi usada pelos turcos-otomanos como local para armazenar armas e explosivos. Mas, e o que não foi eleito digno de salvaguarda? Sempre me lembro da explosão dos budas gigantes pelo Talibã em 2001, amplamente divulgado, chegou até causar comoção mundial. Mas, e tudo o que foi destruído lá na época do Elgin? Ou antes? Certamente houve uma seleção, consciente ou não, do que deveria permanecer no tempo, no museu.


Vista da sala Pathernon Gallery. British Museum, London. 
Foto: Valéria Alencar, Mar./2014

Também, podemos dizer que o fato desses objetos todos estarem no BM conta a história do imperialismo britânico, embora o discurso expositivo e nem o discurso educativo apresentem esta história.

Pra terminar esta conversa, um detalhe da Rosetta Stone, um dos objetos mais importantes do museu, segundo eles mesmos, a Monalisa do BM. A Pedra de Roseta é historicamente considerada o objeto chave na decifração dos hieróglifos egípcios. Existe a original, dentro de vitrine, sempre cercada por muitos visitantes e máquinas fotográficas, e existe uma réplica produzida no século XX, na qual é possível tocar. Ela é idêntica, inclusive trazendo uma inscrição lateral, já não tão visível na original:


Rosetta Stone. British Museum, London. 
Foto: Valéria Alencar, Mar./2014


Abraços e até o próximo mês!

Valeria Alencar

24 março 2014

Conversas ao meia-dia, com Julia Rocha Pinto


Olá leitores do AEOL, meu nome é Julia Rocha Pinto, sou arte/educadora e neste momento estou cursando o doutorado em Educação Artística na Universidade do Porto, em Portugal. Escrevi um texto falando sobre um programa que acontece com as escolas promovido pelo Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves e agora estarei também nas "Conversas de meio-dia".

Hoje estou aqui para contar sobre um evento que acontece aqui na cidade do Porto, promovido pela Câmara Municipal (o que seria o equivalente à prefeitura) no Quarteirão das Artes, que é um conjunto de ruas situadas na baixa, o centro da cidade. A rua principal onde ocorre o evento tem uma página no facebook


   


Seis vezes ao ano, sempre em sábados, acontecem as Inaugurações Simultâneas, onde as galerias de arte situadas nas ruas Miguel Bombarda, Rosário, Breyner, D. Manuel II e Adolfo Casais apresentam novas exposições simultaneamente. As galerias são Galeria SerpenteQuadras SoltasÓ! GaleriaLivraria Papa-livrosGaleria Quadrado Azul e a São Mamede Galeria de arte, que tem até visita virtual no site!.

O evento começa às 16 horas e segue até de noite com performances, DJ’s, shows e espetáculos de artistas de rua. O público é muito variado, sendo um evento que atrai não só frequentadores dos espaços culturais. Professores, famílias, artistas e estudantes se reúnem pelas ruas, seguindo entre as galerias e vendo as novas exposições.

Por mais que estes sejam espaços de comercialização da arte, acho interessante a forma como se articulam promovendo uma vinda maior do público e oferecendo atrações culturais. 

As últimas inaugurações simultâneas aconteceram no dia 8 de março e concentraram aberturas em 18 diferentes galerias. Eu estive presente no entardecer e pude ver alguns dos espaços.





Imagens: Inaugurações simultâneas, 
8 de março de 2014, por Julia Rocha Pinto.

Ainda como forma de atrair a participação de quem vive na cidade, este ano iniciou-se também um concurso para a produção dos cartazes que divulgam o Quarteirão das Artes. Este ano ganhou o estudante de mestrado em arquitetura Jorge Miguel Magalhães Alves que produziu a imagem visual das Inaugurações.

Como inspiração deste formato de evento fico pensando: como podemos articular parcerias entre museus, galerias e escolas para alcançar nossos públicos, dar notoriedade para o trabalho que fazemos e dialogarmos? 

Até a próxima!
Julia

20 março 2014

Conversas ao meio-dia com Erick Orloski, III

Para fechar esta microssérie de posts sobre minhas experiências na Espanha, em 2013, como anunciei antes aqui no blog, falarei sobre a ótima experiência que tivemos com a escola de educação infantil onde meu filho Heitor (com 04 anos na época) estudou.

Como seria 01 ano lá e aqui ele já frequentava a escola, já tínhamos a intenção de matriculá-lo e depois soubemos que, como viajávamos legalmente, éramos obrigados a fazer isto. Nosso receio era por conta da língua, que mesmo muito próxima da nossa, ele não conhecia nada.

Várias opiniões que ouvimos, de educadores e amigos, diziam que ele se adaptaria com muito mais facilidade que nós adultos. Dito e feito: por ter várias horas de convívio diário com outras crianças na escola, ele voltou com mais domínio do espanhol do que eu e minha esposa.

Pesquisamos as escolas da cidade de Pamplona antes pela internet e descobrimos que – para nossa satisfação – a maioria era de escolas públicas, gratuitas, em tempo integral e que poderíamos matriculá-lo em uma delas. A partir de nossa pesquisa e por recomendação de meu orientador na universidade de lá, o Prof. Imanol Aguirre Arriaga, fizemos uma pré-escolha e agendamos uma visita no Colegio San Juan de La Cadena.

A conversa foi agendada com a diretora, que nos explicou coisas mais burocráticas e na sequência fomos visitar a sala e turma em que ele ficaria. A professora e as crianças não sabiam desta visita e tivemos a primeira agradável surpresa: fomos recebidos de braços abertos. A professora interrompeu sua atividade e conversou conosco junto dos pequenos estudantes, que já ficaram muito curiosos com o novo coleguinha.

Poderia aqui falar muitas coisas sobre a proposta pedagógica da escola, mas posso resumir que pude comprovar ser uma educação de qualidade, digo como pai e educador. Claro que estou falando a partir da experiência com esta escola, reconhecidamente uma das melhores escolas públicas de Pamplona, mas o ponto que mais nos chamou a atenção foi das escolas de lá (em geral) como espaços abertos à comunidade.

Todos os dias, no horário da saída (16h50), os portões da escola eram abertos para os pais aguardarem as crianças dentro da escola. Com a saída das crianças, achávamos que todos logo iriam embora, como fazemos aqui. Mas não: todos os pais traziam lanches para seus filhos, que comiam e permaneciam ali brincando por mais 30 minutos ou até 1h nas sextas-feiras, enquanto pais conversavam entre si.

Colegio San Juan de La Cadena, Pamplona/Espanha. Foto: Christiane Coutinho

Era muito bonito ver este momento de educação informal, tanto para as crianças, como para os pais, propiciado pelo próprio espaço da escola, que mantinha seus portões abertos até todos saírem. Claro que isto tem tudo a ver com a realidade da cidade, onde estes pais não gastaram mais que 20 minutos para chegar de qualquer ponto da cidade até ali e depois também podem ir a pé para suas casas (em segurança) também em poucos minutos.
Sabemos que existem algumas experiências em escolas brasileiras e paulistanas tão boas quanto estas, mas também sabemos que infelizmente é exceção e não a regra. Sabemos que isto é fruto nosso do contexto social e econômico, fruto de nossa história. Mas será que existe uma forma de criarmos estes “espaços de experiência” em nossas escolas, apesar de todos os nossos apesares?

Fecho esta série de posts com esta reflexão, sem repostas e muita vontade de pensar junto e buscar alternativas.


“¡Saludos a todos y adiós!” Ou seria outro “¡hasta luego!”?!

Erick Orloski

Mais Conversas...

O "Conversas ao meio-dia" desta semana esta sendo publicado hoje e é de autoria de Erick Orloski. Segunda-feira que vem receberemos a colaboração de Julia Rocha Pinto, aguardem! 

Boa leitura!

Camila Lia
http://www.arteducacaoproducoes.com.br/

10 março 2014

AEP ONLINE e novos colaboradores

A partir de março de 2014 nosso blog recebe colaboração de diferentes arte-educadores através de postagens publicadas no "Conversas ao meio-dia" que acontece toda segunda-feira, sempre ao meio-dia.

Serão postagens sobre diversos assuntos como artes, cultura,  jogos digitais, cinema, exposições entre outros, tecendo relações com o campo da mediação e arte-educação de onde estes autores estão imersos.

Acompanhe, participe, divulgue, comente!

Abraços,
Camila Lia
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Conversas ao meio-dia com Erick Orloski, II

Olá leitores do AEOL, meu nome é Erick Orloski e na semana passada iniciei uma série de 03 posts em Conversas ao Meio-Dia. Estou escrevendo sobre minha experiência de 01 ano de estudo e pesquisa em Pamplona, na Espanha, e na semana passada falei um pouco sobre o lado mais acadêmico desta jornada. Se ainda não leu, que tal uma olhadinha?! Clique aqui.

No último post terminei justamente convidando vocês leitores a dar uma olhadinha no Google o que aparece se você procurar sobre Pamplona. Hoje mesmo conferi para ver se tinha alguma mudança, mas o que mais aparece em imagens numa busca aleatória são fotografias de touros correndo pelas ruas, atropelando ou mesmo chifrando homens vestidos de branco de vermelho. Ah, aparece bastante também imagens de mulheres (aparentemente embriagadas), muitas vezes mostrando os seios em meio a muitos homens (também, aparentemente embriagados).

Estas imagens se referem, em princípio, à tradicional festa de San Fermín, pela qual a cidade é internacionalmente conhecida. E a parte da festa mais divulgada globalmente – talvez a única – são os chamados Encierros, onde um grupo de touros é solto em um percurso fechado do centro velho e corre junto à centenas de homens até a Plaza de Toros. Apesar dos Encierros poderem ser obviamente entendidos como uma violência com estes animais, os touros seguem “vivos” e, em princípio, intocados até seu destino. O problema é que no mesmo dia de tarde, estes mesmos touros vão para touradas e aí sabemos bem como termina...

Desde já deixo claro que sou contra touradas ou qualquer outro evento que pratique qualquer tipo de violência contra animais e pessoas, mas como educador e pesquisador, entendo que é sempre importante olhar e buscar entender os fenômenos culturais como coisas sempre complexas e que, mesmo não sendo justificáveis ou aceitáveis, ocorrem por uma razão e isto tem uma história.

Monumento al Encierro, no centro velho de Pamplona. Foto de Christiane Coutinho

Não é o caso aqui de falar sobre a história deste evento, mas queria destacar uma impressão que tive que me chamou muito a atenção. Apesar do destino trágico dos touros (já deixei claro que não sou a favor disto, não é?!) é curioso ver todo um culto ao touro, quase como um animal sagrado. Claro, esta é uma impressão pessoal, mas pessoas que tocam ou batem nos touros durante os Encierros – geralmente estrangeiros, totalmente por fora da cultura local – são vaiados e hostilizados.

Isto me lembrou a importância de, antes de fazer julgamentos, é adequado olhar para uma cultura diferente da nossa tentando vê-la “de dentro”, buscando entender o significado daquilo para quem pertence àquela cultura. Se o fenômeno é aceitável ou não do ponto de vista da ética é uma análise que acredito que deve ser feita, mas nunca separada deste olhar para a cultura do outro, do ponto de vista do outro.

Bem, quem é brasileiro sabe que, ao contrário do que possa parecer numa busca rápida na internet, não vivemos aqui em pleno Carnaval o ano todo, ao som de samba e passistas seminuas 24 horas por dia. Pude notar a mesma coisa em relação à festa de San Fermín, que é sim um grande evento de 9 dias, que reúne milhares de turistas de toda a Espanha e do mundo, o que é muito diferente do cotidiano da pacata Pamplona.

Há sim muitos jovens bebendo até cair e, como em nosso Carnaval ou micaretas, “caçando” parceiros, mas notei que isto é apenas uma parte da festa. Há uma série de atividades e uma programação cultural mista para todos os públicos, sobretudo as famílias e as crianças. Só para dar um exemplo, todas as noites há uma grade queima de fogos de artifício e milhares de pessoas sentam-se num parque chamado de Ciudadela para ver.

Enfim, isto me mostrou que esta festa é muito mais do que os Encierros, que os próprios Encierros não são exatamente o que sempre aparece em jornais e sites e que as culturas da Espanha – que são muitas – são muito mais do que touradas. Afinal, as culturas do Brasil – que também são muitas – também não são muito mais do que Carnaval e futebol?! Mesmo em ano de Copa...

Agora falei de um evento em especial, mas na próxima semana termino esta série sobre uma experiência cotidiana muito especial que vivemos em família: o relacionamento com a escola de educação infantil onde meu filho Heitor estudou.

¡Hasta luego!
Erick Orloski

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